Hoje meu coração faz uma pausa necessária, mergulhando em uma memória que, embora dolorosa, é o alicerce de quem me tornei. Há exatos cinco anos, o mundo pareceu perder o chão sob meus pés com o diagnóstico oficial da minha amada mãe: Mieloma Múltiplo. Lembro-me daquele dia com uma nitidez quase cruel; o som do seu choro, o pedido desesperado por ajuda e a nossa luta imediata contra o tempo e o impossível para tentar salvá-la de um câncer tão avassalador. Como filha, e também como mãe com deficiência visual compreendo que nossa percepção do mundo vai muito além do que os olhos alcançam; ela se ancora no toque, no som da voz e, acima de tudo, na presença que preenche o espaço. Naquele dia, a impotência foi o sentimento mais escuro que já experimentei. Rezei, implorei e dediquei cada minuto do meu ser na esperança de uma cura que eu acreditava ser a única resposta possível de Deus.
É comum sentirmos, no silêncio que segue a perda, que nossas orações caíram em solo infértil ou que fomos esquecidas pela proteção divina. No entanto, esses cinco anos de ausência física me ensinaram que o maior ato de fé não reside apenas na cura do corpo, mas na coragem de aceitar que o amor que entregamos foi o tratamento mais real e profundo que ela poderia receber. O Mieloma é uma batalha hercúlea e a sensação de não ter feito o suficiente não é um fracasso, mas o limite da nossa humanidade diante da vida. Eu não falhei, e você, que compartilha dessa dor, também não. Amamos, buscamos saídas e oferecemos o que tínhamos de mais precioso: nossa presença inteira.
Hoje, vivo na ponte entre o material e o espiritual, equilibrando a saudade do riso cotidiano com a esperança de que o véu entre os mundos se torne fino o suficiente para nos encontrarmos nos sonhos. Esse desejo de um reencontro, nem que seja por um minuto, é o que mantém a chama dela acesa em mim e se reflete no carinho com que vejo minha filha, Natália, carregar adiante a memória da vovó Leani. Quando vejo filhos que não valorizam suas mães, sinto apenas o eco do valor inestimável do que vivi. Que este marco não seja apenas a lembrança da doença, mas o reconhecimento da força da mulher que ela foi e da dedicação que nos uniu. Que ela receba minhas preces como um abraço quente e que eu consiga, enfim, me perdoar por não ter feito o impossível, honrando o fato de que o possível — amá-la com toda a minha alma — foi feito com absoluta maestria.


















