A infância, historicamente idealizada como um território de pureza e descoberta, tem se tornado, com frequência alarmante, um palco de hostilidades profundas que revelam as fraturas éticas da nossa sociedade. O bullying contemporâneo não se limita mais ao empurrão físico no pátio da escola; ele se sofisticou e se muniu de ferramentas digitais, carregando consigo venenos estruturais como o racismo, a homofobia e o preconceito de classe. O uso do WhatsApp e outras redes sociais transformou o conflito em um massacre silencioso e ininterrupto, onde a covardia é amplificada pela distância física. Como o agressor não vê o choro da vítima, a empatia imediata é anulada, facilitando a disseminação de um ódio que se torna sistêmico em grupos que funcionam como tribunais digitais. Nesse cenário, crianças julgam e condenam colegas por serem quem são, criando um isolamento que alimenta a depressão e a ansiedade infantil em uma velocidade devastadora.
É preciso coragem para admitir que a criança que discrimina raramente o faz por instinto próprio, pois o ódio é, essencialmente, um comportamento aprendido. Quando um jovem reproduz falas preconceituosas, ele está, muitas vezes, ecoando o que ouve à mesa do jantar ou o que observa no comportamento dos adultos. A indiferença conivente de pais que tratam a maldade como "coisa de criança" ou, pior, a alimentação direta do preconceito como forma de superioridade, condena os próprios filhos a crescerem sem empatia. Quando um adulto se cala diante da crueldade, ele não fere apenas a vítima, mas atrofia emocionalmente o agressor. Para as crianças que não compactuam com essas atitudes, o cenário é de desolação, tornando a ética um fardo pesado de carregar em um ecossistema escolar que se transforma em um exercício de sobrevivência emocional.
Para romper esse ciclo de herança maldita, a mudança deve começar pela curadoria do que os adultos oferecem como exemplo dentro de casa. É fundamental que as famílias estabeleçam uma alfabetização emocional que ensine as crianças a identificar o impacto de suas palavras antes mesmo de digitá-las. Isso passa por monitorar ativamente as interações digitais, não como uma invasão de privacidade, mas como um acompanhamento ético, questionando o filho sobre como ele se sentiria se estivesse do outro lado da tela. Incentivar a convivência com a diversidade desde cedo, por meio de livros, filmes e amizades que fujam da bolha social da família, ajuda a desconstruir estereótipos antes que eles se tornem verdades absolutas na mente infantil.
Além disso, é necessário fortalecer a coragem moral das crianças que testemunham o bullying, ensinando-as que o silêncio diante da injustiça é uma forma de conivência. Criar um canal de diálogo aberto onde o erro possa ser admitido e corrigido sem humilhação, mas com responsabilidade, permite que a criança entenda que a internet não é um território sem leis. Transpor essas barreiras exige uma reforma de postura dos adultos, que devem filtrar o que o mundo oferece de pior e cultivar a alteridade. Afinal, a educação para o respeito não é uma opção ideológica, mas um imperativo de saúde pública e humanidade, garantindo que o WhatsApp deixe de ser uma arma e volte a ser apenas uma ferramenta de conexão, e que a infância possa, enfim, reencontrar a sua capacidade de acolher o diferente.
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