O tempo tem essa mania estranha de afastar os dias no calendário, mas aproximá-los do peito. Trago no sangue as raízes de Santa Rosa, a terra em que nasci, e na alma os passos firmes da infância vivida em Giruá, especialmente ali, na acolhedora Rua Santa Rosa. Parece que foi ontem, e ao mesmo tempo parece outra vida, mas tudo aquilo continua intacto, vivo e pulsante dentro de mim.
As lembranças vêm em ondas mansas e trazem de volta os cheiros daquela casa sempre impecável. No centro de tudo, a figura inesquecível da minha mãe: incansável, generosa, prestativa com quem quer que cruzasse seu caminho. Eu a vejo cuidando de cada canto, lavando as roupas no capricho, costurando sem perder a ternura, transformando a labuta diária em puro afeto.
Do fogão a lenha subia o calor que aquecia não apenas o lar, mas os nossos dias. O perfume doce da geleia de uva apurando na panela, o sabor único da chimia de abóbora, o pão caseiro saindo quentinho e as bandejas de bolachas pintadas com tanta paciência. Como esquecer os bolinhos de chuva com aquela calda generosa de chocolate, as calças-viradas polvilhadas de açúcar e canela e os bolos fofos que só as mãos dela sabiam fazer? Cada receita não era apenas alimento, era a tradução mais pura do seu amor e da sua presença.
Ao redor da casa, a vida acontecia com uma simplicidade bonita e rara. Naquela rua, vizinho era extensão da família. Havia uma cumplicidade genuína, um ombro amigo estendido sem hesitar nas horas difíceis e um riso fácil para celebrar qualquer pequena alegria. Sabíamos que nunca estávamos sós.
Ficou distante esse tempo, é verdade. Mas não se perdeu. A saudade de Giruá, daquela casa e de tudo o que ali vivi não é dor que machuca; é a certeza de ter tido uma infância rica em afeto, costurada pelo carinho incondicional da minha mãe. O passado pode ter ficado lá atrás, mas enquanto houver memória e coração, ele continuará sendo a minha casa mais bonita para revisitar.
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